Alvário Rohde
13 de maio de 1943
-27 de agosto de 2026
Partiu no dia 27 de agosto de 2026, aos 83 anos, o nosso biografado Alvário Rohde, em Venâncio Aires, RS. Alvário foi um homem que fez da vida inteira um ato de trabalho, de coragem e de amor.
Ele chegou ao mundo em 13 de maio de 1943, numa casa da Linha 17 de Junho, trazido ao colo de uma parteira, como se fazia naquele tempo. Foi o quarto dos filhos de Irma e Pedro Rohde, e cresceu num mundo de balanças, sacas e mantimentos, no armazém da família, onde aprendeu, ainda menino, a amar o comércio que seria o ofício de toda a sua vida. Foi uma infância cheia de vitalidade e de liberdade. Com o amigo inseparável Valdir Kist, transformava um simples banco de areia em estradas por onde faziam rodar seus caminhõezinhos pelo "mundo". E que menino corajoso: aos oito anos já montava sozinho e cavalgava sete quilômetros até Harmonia da Costa só pelo prazer de passear. Dizia que seu cavalo era tão esperto que só lhe faltava falar.
Nem tudo foi leve. Na escola, apanhou de régua nos dedos por insistir em escrever com a mão esquerda, e aprendeu a escrever com a direita mais por medo do que por vontade. Ajoelhou-se sobre grãos de milho como castigo. Mas foi justamente entre a rigidez da escola e a liberdade do campo que se forjou o caráter firme, sereno e destemido que todos conheceram. Esse destemor apareceu cedo. Aos treze anos, mandado ao seminário em Taquari, o jovem Alvário não se dobrou à dureza da instituição. Certa vez, flagrado comendo cana de açúcar com os colegas, foi repreendido por um padre que chamou aquilo de "comida de porco" e o mandou escrever cinco mil vezes a frase de castigo. Alvário, irrequieto, escreveu de volta: "Aqui nem comida de porco se pode comer." A ousadia lhe custou o lugar no seminário — e nos rendeu, para sempre, o retrato de um homem que nunca engoliu injustiça calado.
Voltou para casa, voltou ao trabalho, e trabalhou como poucos. Foi garçom no bar da rodoviária aos dezesseis anos, serviu ao Exército em Dom Pedrito, levou linguiças de carroça pelos caminhos da região, transportou safras, fez fretes e mudanças até o Paraná. E foi jogador do Esporte Clube Guarani.
Mas a vida guardava para Alvário o seu encontro mais importante. Foi num baile de carnaval de 1964, no Salão Lermen, entre confetes e serpentinas, que seus olhos cruzaram com os de Lourdes. Casaram-se em 19 de março de 1966, dia de São José, e comemoraram justamente ali, no salão onde tudo começara. Foram quase sessenta anos de mãos dadas — o temperamento firme dele encontrando equilíbrio na serenidade dela, e dessa combinação nascendo uma harmonia que virou exemplo. Juntos, criaram Maria Betânia e Luciano com amor e disciplina, ternura e firmeza, e mais tarde receberam os netos Sara Liz, Isadora e Edgar — a segunda primavera de suas vidas.
Homem de coragem também nos negócios, Alvário ergueu com Lourdes o Supermercado Rohde. Cuidava dele como quem cuida de um filho, partindo antes do sol nascer rumo à Ceasa em Porto Alegre e voltando só à tarde. Tinha faro e tinha palavra: era tão amigo dos fornecedores que, nos tempos de inflação alta, chegou a trazer quatro caminhões de farinha fiados, confiando no aperto de mão.
Por mais de trinta anos serviu ao Lions Clube, que presidiu. Foi um dos fundadores do Lar Novo Horizonte, casa que acolhe idosos com dignidade e afeto, e à qual dedicou anos de presidência, de corpo e alma. Presidiu o Guarani e a Apae de Venâncio Aires. Onde passou, deixou solidariedade. Em Venâncio Aires, seu nome sempre foi dito com respeito e carinho.
Em 2022, realizou um sonho antigo: pisou na Alemanha, o chão dos seus antepassados. Achava que o alemão da infância estava enferrujado, mas descobriu, emocionado, que a língua ainda vivia dentro dele — só tinha adormecido.
Alvário costumava dizer que a vida é feita de "pedrinhas no caminho" — mas que é justamente nelas que a gente firma o passo. Foi assim que ele viveu: firmando o passo em cada pedra, com trabalho, honestidade e fé, ensinando pelo exemplo que a verdadeira riqueza está no caráter e na dignidade.
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